O solo de improviso no Oriente Médio e no Ocidente

O solo de improviso é a base da dança do ventre no oriente médio. Cada país ou região tem suas particularidades, porém, a maioria relega esse gênero de dança ao entretenimento ao invés de uma forma de arte. A versão tal como a conhecemos no ocidente é uma mistura das contribuições de vários países, acrescentada da visão e componentes ocidentais.

Dança do Ventre - O solo de improviso no oriente médio

A visão do solo de improviso no Ocidente e no Oriente Médio

Talvez nenhum gênero de dança tenha sido tão sujeito a erros de interpretação e de negligencia pelos estudiosos de dança quanto o estilo de dança solo improvisada do Oriente Médio, aqui chamada de “solo de improviso” e que é a base da dança do ventre. Seu status de cultura popular, sua pré-assumida sexualidade e sua frequente associação com danças de strip-tease pelo público em geral e pelos estudiosos, estão entre as razões para essa evasão acadêmica. A Enciclopédia Internacional de Dança evita o termo “dança do ventre” em favor do “danse du ventre”, termo francês. Este gênero é muitas vezes a principal forma de dança nos centros urbanos e, no Egito, de toda a população, que simplesmente o chama de “dança” (raqs). Resumidamente, este gênero de dança pode ser melhor conceituado como um complexo conjunto de práticas de movimentos que se originou em uma vasta região que se estende do Norte da África aos Balcãs, englobando o leste da China, a Ásia Central e o oeste do subcontinente indiano. Além disso, para  fins de comparação, consideramos ainda as manifestações dessa dança fora da referida área de origem, particularmente na América do Norte e na Europa. [nota 03]

A complexa mistura e contribuições dos países para a dança do ventre nos dias de hoje

Dança do Ventre - O solo de improviso no oriente médio
Dança do Ventre – A dança solo improvisada no mundo islâmico

Em cada uma dessas áreas, a dança é caracterizada por articulações improvisadas do tronco, mãos, braços e cabeça. A parte específica do corpo que forma o foco da dança varia ao longo desta vasta região, e provavelmente tem variado historicamente também. Por exemplo, na prática vigente hoje no Marrocos, dançarinas profissionais, conhecidas como shikhat, e também as pessoas que dançam em espaços domésticos, realizam um levantamento e abaixamento suave da pelve. Na Tunísia, dançarinas executam movimentos  afiados e largos do quadril projetando um lado para a frente. No Egito, a dança é largamente concentradas nas ondulações e movimentos articulados do abdômen e das vibrações dos quadris, que podem ser rápidas ou lentas. Na Turquia, o chiftetelli concentra-se em movimentos rápidos e lentos dos ombros e shimmies de peito. No Irã, as dançarinas utilizam o torso, enquanto que dançarinas graciosas são avaliadas pelas ondulações da parte superior do corpo e pelos movimentos seus braços. Já as grandes dançarinas também manipulam suas sobrancelhas e lábios de forma divertida ou sensual (Shay I999, 20-34). No Afeganistão, Uzbequistão e Tajiquistão, extensões culturais do mundo iraniano, as bailarinas utilizam movimentos do ombro e shimmies e, como as dançarinas iranianas, enfatizam a parte superior do corpo e os movimentos graciosos, com pequenos movimentos das mãos e dos braços. Estas observações são muito gerais e devem ser contrabalanceadas com o conceito de que este é um estilo muito peculiar de dança e que, além disso, varia enormemente de uma pessoa para outra. [nota 04]

      Embora o termo “dança solo improvisada” geralmente se encaixar nas práticas atuais de danças domésticas e profissionais, fontes e imagens históricas mostram frequentemente duplas, trios e grupos maiores.

Solo de improviso dançado em grupo

De fato, os indivíduos às vezes dançavam juntos ou eram membros de pequenas unidades de dança, porém cada uma tinha uma especialidade. Por exemplo, no Irã e na Turquia, bandas de dançarinas profissionais travavam competições acirradas e tinham que desenvolver talentos e estratégias únicas; elas muitas vezes cantavam, atuavam, tocavam instrumentos musicais e realizavam proezas atléticas, uma prática rara no nosso tempo. Embora essas dançarinas frequentemente aparecerem fotografadas juntas, as fontes históricas não dão nenhuma dica de que hoje as chamaríamos de “coreografia de grupo”, em que as bailarinas se movem em uníssono. Muitas fontes europeias sobre o Irã e a Turquia mencionam que duas dançarinas teriam “papéis/personagens” (muitas vezes impertinentes)  em playlets e peças (Beza’i 1965; Rezvani I962; Shay 1999). Atualmente pode-se ver fotografias ou vídeos com várias dançarinas no mesmo espaço de dança, como em um evento social como um casamento, mas, a menos que coreografaram para execução pública, cada bailarina dança como um individuo, ou seja, fazem uma dança solo de improviso, mesmo que estando em grupo. Ocasionalmente elas podem dançar fazendo referencia uma para a outra, mas raramente coordenam os seus movimentos.

Dança do Ventre - A dança solo de improviso no mundo islâmico
Dança do Ventre – No Ocidente nos apropriamos de várias vertentes e incluímos características locais.    Créditos: foto de Cris Parfitt; dançarina: Sabrinah

      Por todas essas regiões, tanto as dançarinas profissionais quanto a população urbana em geral, executam este gênero como a principal forma de expressão de dança. Dançarinas profissionais podem executar variantes, muitas vezes altamente elaboradas, das muitas versões desse gênero de dança que são realizadas em contextos sociais e domésticos. Assim, este gênero constitui ao mesmo tempo uma dimensão social, popular, profissional e, mais recentemente, uma dança classicista.

A dança do ventre não é considerada uma forma de arte no Oriente Médio

 A dança solo improvisada no mundo islâmico do Oriente Médio, Norte da África e Ásia Central é uma expressão abstrata, ao contrário das narrativas que caracterizam muitas formas de dança clássica no Japão, Bali e Índia. Hoje, no Oriente Médio e áreas afins, a esmagadora maioria da população considera este gênero uma dança de entretenimento ao invés de uma forma de arte, e não há nenhuma evidência convincente para sugerir que historicamente isso tenha sido diferente, apesar de várias tentativas românticas e infundadas para restaurar a dança como uma forma de arte honrada em tempos históricos (De Warren 1973; Rezvani 1962). [nota 05]

Kathleen Fraser, em seu estudo sobre canadenses egípcios, observa que “entrevistados descreveram a dança como tendo um lugar legítimo em sua cultura, mas não é um lugar sério. Os egípcios canadenses amam verdadeiramente esta dança, mas não conseguem dizer que eles lhe dão alta estima como uma forma de arte ” (Frasier 1993, 59).


NOTAS:

Nota 03:

O nome “Dança do Ventre”

O nome de dança do ventre é simplesmente o termo que foi dado pelos seus praticantes e devotos, bem como por aqueles que executam a dança como uma prática social e por outros observadores e escritores. “Hoje em dia é mais frequentemente chamada de dança oriental, uma etiqueta aparentemente destinada a emprestar modéstia, deslocando o ponto de referência da anatomia à geografia” (Berger 1966, 43).

Muitos termos da Mesopotâmia, Anatólia, Ásia Central, planalto iraniano, e o Vale do Nilo foram irremediavelmente perdidos como centenas de línguas antigas extintas.

Outra nomenclatura inclui: raks sharki (literalmente dança oriental em árabe: ar-raqs ash-sharqi), raqs misri (dança egípcia), danse orientale, danse du ventre, baladi (dança do campo), cifte telli (a popular variante turca), majlesi (literalmente dança de reunião social em persa), e termos menos conhecidos, como cifte cifte e karsi-karsija (variantes do cifte telli turco e karsilama), em sérvio e macedônio (Jankovic 1939).

Nota 04:

Videografia

História da Dança do Ventre – Afeganistão

História da Dança do Ventre – Curdistão

História da Dança do Ventre – Irã

História da Dança do Ventre – Marrocos

História da Dança do Ventre – Tunísia

História da Dança do Ventre – Uzbequistão

História da Dança do Ventre – Ciganos

 

 Trecho do filme Latcho Drom.
Aqui, mostramos apenas o trecho que se passa no Egito.
É muito interessante ver a “Dança do Ventre” em seu contexto natural!

Créditos: Tony Gatlif

Nota 05:

O Preconceito sobre a dança do ventre antecede o islamismo

Na verdade, há muitas razões para se acreditar que, como outras áreas da vida e atitudes pré-islâmicas, atitudes negativas em relação dançarinos públicos, masculino e feminino, existiam antes e continuaram existindo após o advento do Islã. Precisamos apenas acompanhar a carreira da Imperatriz Theodora, que começou a vida como dançarina pública. Quando ela se tornou a esposa de Justiniano I, todo aparelho do estado bizantino entrou em marcha para expurgar seu passado vergonhoso, incluindo uma dispensa para citar Theodora como uma nobre, uma vez que as classes de elite eram legalmente proibidas de se casar com artistas, do mesmo modo que era feito em Roma (veja Ponte 1993, 16-18, 94-95). Annemarie Schimmel indica que dançarinas e outras artistas eram impedidas de ser testemunhas em tribunais islâmicos (Schimmel 1990, 425-426). Jean Chardin, que viajou pela Pérsia de 1673 a 1677, descreve como as dançarinas eram cortesãs e eram controladas por uma mulher mais velha que cobrava para elas dançarem (citado em Surieu 1967, 150-152); e C. E. Bosworth observa que artistas eram consideradas parte do submundo do crime no mundo medieval islâmico (1976 Bosworth, I). Assim, a elite contratava as mesmas bailarinas como os outros, mas como eles podiam pagar mais, podiam contratar as melhores dançarinas. Gostaríamos de sugerir que há uma noção generalizada prevalecente, tanto no Oriente como no Ocidente, que uma noite as luzes se apagaram e na manhã seguinte surgiu o Islã. Não foi bem assim, muitas das crenças e atitudes já existiam antes, como o preconceito em relação às dançarinas (N.T.). Sugerimos que os leitores interessados em entender como os muçulmanos adotaram as crenças pré-islâmicas, suas atitudes e valores estéticos, consultar o excelente estudo de Oleg Grabar A Formação da Arte Islâmica (1987).


FONTE:

Texto baseado no famoso artigo “Belly Dance: Orientalism: Exoticism: Self-Exoticism” da Dra Barbara Sellers-Young e do Dr Anthony Shay, publicado em 2003 na revista Dance Research Journal.


Para saber MAIS:
  1. Berger, Morroe. 1996. “Belly Dance.” Horizon. Spring, volume 7/2: 42-49.
  2. Beza’I, Behzad. 1965. Namayesh dar Iran (Theater in Iran, in Persian). Tehran: Kaivan Press.
  3. De Warren, Robert and Peter Williams. “ 1973. “Discovery in Persia.” Dance and Dancers. January 1973: 10/2: 28-32.
  4. Fraser, Kathleen. 1993. “Aesthetic Explorations: The Egyptian Oriental Dance Among Egyptian Canadians.” UCLA Journal of Dance Ethnology, Volume 17, 1993: 58-66.
  5. Jankovic, Ljubica S. and Danica S. 1939. Narodne Igre (Folk Dances, in Serbian). Beograd: no publisher.
  6. Oleg Grabar A Formação da Arte Islâmica (1987).
  7. Rezvani, Medjid. 1962. Le Theatre et la Danse en Iran. (Theater and Dance in Iran, in French). Paris: Maisonneuve et Larose.
  8. Schimmel, Annemarie. 1990. “Raks.” (Dance). Encyclopedia of Islam, 425-426.
  9. Shay, Anthony. 1999. Choreophobia: Solo Improvised Dance in the Iranian World. Costa Mesa, CA: Mazda Publishers.

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Dança Solo de Improviso:

A dança improvisada é o processo de criação de movimento espontâneo. O desenvolvimento do movimento de improviso é facilitado através de uma variedade de explorações criativas, incluindo o mapeamento do corpo através de níveis, formas e esquemas dinâmicos. A dança do ventre é uma das formas de dança mais improvisadas, já que a música geralmente é ao vivo e muitas vezes não suporta a natureza estruturada da coreografia. A improvisação é uma forma livre, aparentemente não estruturada, menos tecnicamente rigorosa e impulsiva que se inspira em práticas diárias de dança e influências. É uma técnica de movimento que é capaz de evocar o conteúdo dramático e instigante tão bem quanto técnicas de dança ocidentais mais codificadas, como balé por exemplo. Dança improvisada não é apenas sobre a criação de um novo movimento, mas também é definida como liberando o corpo de padrões de movimentos habituais. Bem, e não tem como fazer improvisação sem ser por conta própria. Daí o nome, dança SOLO improvisada.

Chiftetelli:

Çifte telli (Turquia); tsifteteli (Grécia); čifte-čifte (Sérvia e Macedonia). É um estilo de dança turca. Uma forma de dança do ventre popular na Turquia, Grécia e em partes dos Balcãs, regiões que fizeram parte do Império Otomano. Na Turquia é performado por dançarinas de cabaré ou nos night clubs. É caracterizado por rápidos movimentos de ombros, seguindo geralmente o  ritmo 8/4, terminando em DUM TAKATA. Às vezes é confundido com outro ritmo turco, o Karsilama, porém este segue o ritmo 9/8. Chiftetelli é nome dado à dança do ventre na Turquia e na Grécia.


By Dani Camargo


Autor: Dani Camargo

Professora e bailarina de dança do ventre desde 2002. Formada em Educação Física e proprietária do Studio de Dança Dani Camargo, localizado em Campinas.

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