A dança do ventre e o preconceito no Oriente Médio

A dança do ventre no oriente médio é um caso de amor e ódio, admiração e preconceito, fascínio e repulsa. Saiba mais sobre esse dilema…

Dança do Ventre - O preconceito no mundo islâmico - Julgamento.

No Oriente Médio, o exercício da dança do ventre como uma prática profissional é visto com forte descrédito e preconceito,  que decorre não de puritanismo, mas sim de costumes islâmicos que ditam que as mulheres não devem aparecer descobertas na frente de homens que não tenham uma relação de apropriado parentesco com elas. Dançarinas públicas que aparecem na presença do sexo masculino em espaços públicos violam fortemente esses costumes e reforçam a noção generalizada de que bailarinas profissionais são prostitutas. Desde o Afeganistão até o Marrocos, este é o motivo declarado para os ataques feitos às dançarinas (Mernissi 1975; Shay 1999). [Nota 7]

Decorrente destas percepções, esta tradição de dança, nos variados contextos em que é realizada no Oriente Médio, Ásia Central e Norte da África, sofre condenação frequente por fundamentalistas islâmicos e aqueles indivíduos no mundo islâmico que acreditam que toda a música e, principalmente, a dança, são pecaminosos e ilegais. No Irã e no Afeganistão sua realização é proibida, apesar de inúmeros relatos recentes de visitantes e gravações em vídeo reproduzidas na televisão iraniana demonstrarem que as pessoas a executam ilegalmente. [Nota 8]

O preconceito contra a dança do ventre o mundo árabe.
O preconceito contra a dança do ventre o mundo árabe, onde as dançarinas que se expõem ao público são vistas como prostitutas.

Atualmente no Egito há uma pressão forte, por vezes acompanhada de ameaças de violência, para evitar a dança do ventre nos contextos públicos e sociais, como casamentos (Daniszewski, 2001). Vendedores de vídeo em mercados no  Cairo relatam que eles evitam ter determinados vídeos de dança em suas lojas por causa de ameaças e preconceito (Shay, 2002). Estas crenças fundamentalistas não são de modo algum universalmente aceitas, e, portanto, este gênero de dança, ao contrário das danças folclóricas regionais, por exemplo, forma uma área altamente contestada nas sociedades muçulmanas. Reações negativas à dança são tão fortes que Shay (1999) cunhou o termo coreofobia para descrever este fenômeno. A estudiosa de dança Najwa Adra enumera uma série de eufemismos que as pessoas no mundo árabe usam para justificar seus movimentos, concluindo “Pode-se dizer que a dança é uma atividade que quase todo mundo gosta no Oriente Médio, porém não gostam de propagandear” (Adra 1998, 403).

A dança oriental sempre foi controversa na cultura egípcia. Os egípcios adoram a dança do ventre. Tahia Carioca, uma lendária dançarina do ventre, declarou ao jornal Al Hayat em 1994: “Vá a qualquer festa de casamento e, assim que a música começar, você verá todas as garotas de família de repente se levantarem e dançarem como loucas.” Por outro lado, as pessoas não têm a dança oriental em alta consideração, pois elas equiparam sua sugestividade com a vulgaridade e a vida solta, sem regras. Chamar alguém de “filho de uma dançarina do ventre” é um insulto.

 

Ser uma dançarina do ventre pode criar muitas de dificuldades

Dança do Ventre - O preconceito no mundo islâmico - Sama El Masry
Popular atriz e dançarina egípcia Sama El Masry, cuja candidatura ao parlamento foi barrada pela justiça.

Um exemplo é o caso da dançarina egípcia Sama El Masry, que é muito conhecida no Egito e que tinha se candidatado a concorrer pelo Parlamento em 2015, representando o distrito da Gamalia. Sama teve sua candidatura impedida pelo tribunal de justiça por ser bailarina de dança do ventre. Segundo o Supremo Tribunal Administrativo, que tenta disfarçar o preconceito, ter traços “agradáveis” e boa índole é bom para as pessoas em geral, porém, são obrigatórios para os membros do parlamento. A falta de tais características resulta em o membro do parlamento ter de enfrentar  ‘instabilidades ” e dificuldades na realização de seu papel e deveres, acrescentou o Tribunal.

Na tomada de sua decisão, o tribunal disse que reviu programas de televisão, entrevistas e vídeos com Sama El Masry, concluindo que ela era mal-educada,  desrespeitosa e que não promovia uma  imagem apropriada que era esperada de uma mulher. Em relação ao seu trabalho ser uma expressão de criatividade, o tribunal disse que a criatividade e a inovação podem ser atingidas  mantendo-se altos valores e ética.

Diante dessa decisão, Sama disse em entrevista na mídia que iria  respeitar o resultado, porém que era uma pena pois ela sempre havia sonhado em representar o povo de sua região. O triste foi que esse processo só foi aberto devido a uma ação judicial movida por um dos moradores do distrito da Gamalia, que disse que Sama não estava apta para representa-los.

Veja no vídeo abaixo uma performance de Sama El Masry.

Preconceito leva dançarinas do ventre a serem julgadas e condenadas à prisão no Egito

Dança do Ventre - O preconceito no mundo islâmico - Soha Mohammed
A dançarina Soha Mohammed, conhecida como Shakira, condenada a 6 meses de prisão pelo vídeo apimentado “Felfel we El Kamoun”. Crédito: Mazzika Group

Infelizmente as dançarinas do ventre no Egito, recentemente, tem enfrentado uma onda de ações judiciais. Em setembro de 2015, duas dançarinas do ventre que haviam sido acusadas de libertinagem e de promoção de imoralidade em seus vídeos de música foram condenadas a seis meses de prisão. O Tribunal de Agouza condenou as dançarinas Soha Mohammed (de nome artístico Shakira) e Dalia Kamal Youssef (de nome artístico Bardis) a seis meses de encarceramento após concluir que elas eram culpadas de incitar a imoralidade, a depravação e a promoção da nudez em seus videoclipes “sem-vergonha”. Elas foram presas após um advogado registrar na polícia acusações de que as dançarinas do ventre estavam manchando a imagem do Egito. Shakira é mais conhecida por sua aparição no popular vídeo de música ‘Felfel we El Kamoun’, enquanto Bardis apareceu na versão moderna ‘ Ya Wad Ya Teel ‘.

Dança do Ventre - O preconceito no mundo islâmico - Dalia Kamal Youssef
Dalia Kamal Youssef , de nome artístico Bardis, condenada a seis meses de prisão pelo seu assanhado vídeo clipe “Ya Wad Ya Teel “.

 

Veja o vídeo “Felfel we El Kamoun” de Soha Mohammed, Shakira

Veja o vídeo “Ya Wad Ya Teel ” de Dalia Kamal Youssef, Bardis

A dança do ventre pode gerar prisão

A dança oriental pode ser realizada no Egito somente com uma permissão do governo. Um oficial da “polícia moral” pode prender uma dançarina por usar um traje que mostra mais do seu corpo do que a lei permite, ou porque ela dança de uma maneira considerada muito provocativa.

Foi o que ocorreu com a dançarina egípcia Salma El-Fouly foi presa por estar dançando sedutoramente e vestindo roupas reveladoras no vídeo “Seib Eidy” (“Me deixe passar a mão”, em tradução livre) , aparecendo em manchetes internacionais. Ela foi acusada de “incitar a libertinagem e imoralidade” e “denegrindo a moral pública”.  Esse vídeo, entretanto,  é um pouco diferente em relação aos dois anteriores. Este, além da qualidade e do gosto duvidosos, conta a história de uma mulher que estava num trem misto (homens e mulheres no mesmo vagão), que foi assediada sexualmente por um homem que passou a mão nela e que secretamente gostou disso. Pronto, estava armada a confusão: a dançarina foi presa e o rapaz do vídeo, seu namorado, teve que fugir do país.

 

Dança do Ventre - O preconceito no mundo islâmico - Salma_al_Foly
A dançarina Salma_al_Foly em imagens do vídeo clipe “Sib Eddi”. À direita abaixo ela aprece de algemas antes de ser encaminhada ao centro de detenção. Mais uma vítima do preconceito.

Mesmo famosas dançarinas são vítimas de preconceito, sendo detidas e julgadas

Dança do Ventre - O preconceito no oriente médio - Safinaz
A bela e famosa dançarina armênia Safinaz, que mesmo sendo uma celebridade no Egito, foi detida por seus trajes de dança do ventre.

 Uma celebridade da dança do ventre no Egito foi detida e encaminhada ao “Tribunal da Contravenção” acusada de difamar o país ao ter dançado com trajes na cores vermelho, branco e preto, supostamente representando as cores da bandeira egípcia, informou jornal egípcio Al Ahram. Sofinar Gourian, de nome artístico Safinaz, e que é muito famosa por seus clipes de vídeo provocantes, foi convocada pelo Ministério Público sobre a roupa que ela usava durante uma festa em um resort do Mar Vermelho. A denuncia foi feita por uma empresária egípcia, proprietária de um hotel no Cairo. A dançarina foi detida e liberada após pagar US $ 2.620 de fiança.

Dança do Ventre - O preconceito no mundo islâmico - Safinaz
A dançarina Safinaz em apresentação com as cores da bandeira do Egito, sendo processada e detida por isso.

Comentando sobre o traje, Safinaz disse que usar as cores da bandeira egípcia era uma “carta de amor” para o Egito, acrescentando que ela não tem a intenção de deixar o país. Ela, que é da Armênia,  tem sido um sucesso imediato desde a sua chegada no Egito em 2013, com aparições em vários filmes egípcios, programas de TV , apresentações em casamentos da alta classe.

O histórico de repressão à dança do ventre é antigo

Em 1834, o governante do Egito, Muhammad Ali, tomou medidas para preservar, como ele via, a moral do Egito ordenando a prisão e o exílio para o Alto Egito de todas as dançarinas do ventre e prostitutas. Ele também impôs uma punição de 50 chicotadas a qualquer mulher que dançasse na rua.

Na década de 1960, sob a presidência de Gamal Abdel Nasser, o departamento governamental responsável pela supervisão e censura das artes ordenou que “na dança oriental não é permitido mostrar o seguinte: deitar de costas; deitar no chão de uma forma vulgar de modo a excitar; fazer movimentos rápidos de tal forma a causar excitação; não abrir as pernas totalmente; não deve haver movimentos para cima e para baixo. ” As dançarinas devem ter dado risada quando ouviram falar dos regulamentos, que eram impossíveis de seguir e que as teriam forçado mudar de carreira.

Mahmoud Reda, Farida Fahmy e a Troupe Reda em 1963

O governo de Nasser fez grandes esforços para preservar a dança oriental como uma forma sanitizada e pura de folclore, removendo-a de seu contexto sensual. Em 1961, Nasser colocou até mesmo o grupo de dança de Mahmoud Reda, que também buscava valorizar a dança folclórica, sob os auspícios do Ministério da Cultura. A Troupe, que incluía   Farida Fahmy, buscava a valorizar a dança tradicional e folclórica, que dançava em todo o mundo, conquistando medalhas e prêmios, exceto no Egito. Apesar de toda a sua admiração pela Trupe Reda, os egípcios ainda se apegavam à dança oriental “mais terrosa”, aquela que eles já estavam familiarizados e que amavam e não davam valor para a nova proposta de Reda.

O outro lado

Algumas considerações. Tiramos muitas informações de matérias de jornal e de internet, porém, mesmo se tratando de informações verídicas, a tendência é de encontramos notícias negativas nesses canais. Por exemplo, ninguém quer fazer notícia de uma dançarina do ventre que foi bem recebida e bem tratada. Mas quando algo ruim acontece, isso vira notícia. Sei que devo estar falando o obvio aqui, mas acho importante ressaltar esse ponto.

O preconceito existe (há muitos blogs, em várias línguas, de pessoas relatando experiências reais), porém existe uma parcela grande da populução que tem uma postura diferente, mais aberta e receptiva. Por exemplo, os dois vídeos compartilhados acima foram produzidos no Egito e envolveram uma monte de gente, que estavam cientes do que estavam fazendo e não viam isso como um problema.

No link abaixo é possível encontrar vários trechos de vídeos de casamento onde uma das dançarinas detidas aparece. Em comum esses casamentos tem o fato de serem chiques, envolvendo pessoas ricas da alta sociedade. Pense bem, em um dos dias mais importante de sua vida, na frente de todos os convidados, você acha que a pessoa iria pedir uma apresentação de dança do ventre se isso fosse considerado vergonhoso, pecaminoso e ultrajante pelo grupo?

     

Por fim, veja o vídeo da garotinha abaixo em uma festinha de aniversário no Egito. Ela deve ter por volta de uns 3 anos. Ela faz uma dancinha alegre por uns quatro minutos, encaixando vários tipos de movimentos. Uma gracinha!!! Para uma criança tão pequena manifestar espontaneamente essa dança com certeza ela é exposta a isso por bastante tempo, seja em casa com parentes ou vendo na TV. Ou seja, faz parte do cotidiano dela.

Retomando o que o foi falado logo no começo do texto, não importa se o país é mais ou menos conservador, a sociedade vive em uma dicotomia quando o assunto é dança. Por um lado as pessoas gostam muito, por outro, há o preconceito e as restrições do islamismo. Navegando de um extremo ao outro encontramos os totalmente tolerantes, os intolerantes, os que fingem tolerar porque ganham dinheiro com isso, passando pelos mais variados níveis de preconceito.

Fascínio e repulsa

A tradição de desdenhar sobre a dança oriental tem uma história longa. Na “Description de l’Égypte”, escrita por estudiosos franceses após a invasão de Napoleão em 1798, as bailarinas foram descritas como “mulheres sem treinamento ou decoro, e nada mais obsceno pode ser imaginado do que seus movimentos de dança “.

Essa perspectiva parecia menos preocupante para o escritor Gustave Flaubert, que percorreu o Egito em 1849-1850 e que ficou encantado por uma bailarina chamada Kuchuk-Hanem (um nome turco que significa “a pequena dama”). Ele a admirava como “uma criatura alta, mais pálida do que os árabes“. O escritor americano George William Curtis, que visitou o Egito por volta da mesma época e também se apaixonou por ela, descreveu a bailarina como “ela não é mais um botão, porém é uma flor que ainda não desabrochou.

Então, qual é o segredo desse fascínio mítico? O acadêmico palestino-americano e autor do livro “Orientalismo” Edward Said, escrevendo para o Al Hayat, comparou o ballet ocidental onde “é tudo sobre elevação, leveza, o desafio ao peso do corpo“, com dança oriental, que “mostra a dançarina plantada no chão, cada vez mais solidamente na terra, quase cavando nela.” Ele observou que esta última sugere “uma sequência de prazeres horizontais“, mas que ao mesmo tempo “paradoxalmente também transmite o tipo de elusividade e graça que não pode ser fixada em uma superfície plana.”

Segundo a Dra Andrea Deagon, que pratica dança do ventre desde os 17 anos, a dança oriental é libertadora para as mulheres.

É uma forma de auto-expressão através do movimento que fala sobre aquilo que é indizível para a sociedade egípcia, a verdade sobre os prazeres do corpo.

E é por isso que a dança oriental representa um desafio para uma religiosidade que vê qualquer forma de exibição como um ato de impureza. Assim a dança do ventre segue incompreendida e associada com a desonra. E é precisamente isso o que a torna uma arte subversiva: a dançarina que se livra dos grilhões da ordem patriarcal bate de frente com o medo nos corações dos conservadores religiosos, podendo até representar uma ameaça à tirania. Daí a sua repressão periódica.


NOTAS:

Nota 07

Dificuldade em entender a dança no contesto islâmico

Enquanto discutimos o Islã em termos simplistas, devido à brevidade do artigo, na verdade, seria melhor falar de Islãs, no plural, uma vez que o Islã é uma religião altamente fragmentada como o cristianismo. O islamismo é dinâmico e vivo, não é estático e imutável. Além disso, dentro de cada vertente encontramos muçulmanos que vão desde profundamente devotos até os quase ateus. Desse modo, a dificuldade de escrever sobre a dança em um contexto muçulmano flerta com o perigo da simplificação e da generalização. Para um debate em profundidade do tipo de Islã, consulte livros especializados. Se prefere teses e artigos, recomendo os de Anthony Shay.

Nota 08

O Histórico evento de dança do Irã em 1998

Um artigo de uma revista descreve a primeira apresentação pública de dança do ventre (estilo solo improvisado) no Irã diante de uma plateia só de mulheres realizada no verão de 1998. Por causa do seu significado perigoso e negativo, a palavra “dança” não foi utilizada, ao invés disso a apresentação foi denominada como “Performance of Harmonious Motions” (Performance de Movimentos Harmoniosos). O evento foi realizado em uma subsolo abandonado que foi adaptado para concertos e apresentações. (Entekhabi-Fard 2001). O destaque do evento foi Farzaneh Kaboli, famosa bailarina clássica iraniana durante a pré-revolução islâmica e que estava proibida de dançar desde 1979.

Leia mais sobre esse evento: Behind the veil
Ou baixe o arquivo: Behind the veil


FONTES:

“Belly Dance: Orientalism: Exoticism: Self-Exoticism” da Dra Barbara Sellers-Young e do Dr Anthony Shay, publicado em 2003 na revista Dance Research Journal.

http://egyptianstreets.com/2015/10/08/popular-egyptian-belly-dancer-banned-from-running-for-parliament-for-lacking-a-good-reputation

http://egyptianstreets.com/2015/09/03/two-egyptian-belly-dancers-sentenced-to-prison-over-debauchery-in-music-videos

http://english.ahram.org.eg/NewsContent/1/64/124277/Egypt/Politics-/Famous-belly-dancer-Sofinar-arrested-over-insultin.aspx

http://www.madamasr.com/news/director-and-performer-sentenced-one-year-inciting-immorality

httsp://www_nytimes.com/2014/05/14/opinion/aswany-dirty-dancing-in-egypt.html

Casos os links deixem de funcionar, baixe os artigos:

Famous belly dancer Sofinar arrested

Belly Dancer Banned From Parliamentary Elections

Belly Dancers Sentenced to Prison

Dirty Dancing in Egypt

Director and performer sentenced to one year


Para saber MAIS:

  1. Adra, Najwa. 1998. “Middle East: An Overview.” International Encyclopedia of Dance. Oxford University Press.
  2. Daniszewski, John. 2001. “Tummy Trouble in Cairo.” Los Angeles Times, August 2, 2001: A1.
  3. Entekhabi-Fard, Camelia. 2001. “Behind the Veil.” Mother Jones. July-August 2001: 68-73; 85.
  4. Mernissi, Fatimah. 1975. Beyond the Veil: Male-Female Dynamics in a Modern Muslim Society. NY: John Wiley Press.
  5. Shay, Anthony. 1999. Choreophobia: Solo Improvised Dance in the Iranian World. Costa Mesa, CA: Mazda Publishers.
  6. Shay, Anthony. 2002. Choreographic Politics: State Folk Dance Companies, Representation, and Power. Hanover and London: Wesleyan University Press.

Seção +QUERO MAIS+

  1. Baixe as músicas:

Felfel we El Kamoun – Soha_Mohammed

Ya Wad Ya Teel – Bardis

2. Um pouco mais de leitura

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2801200109.htm

São Paulo, domingo, 28 de Janeiro de 2001, FOLHA DE S. PAULO

INTOLERÂNCIA
Mistura de preconceito e conservadorismo religioso deixa as dançarinas na mira da polícia moral egípcia

Egito censura o ventre na dança do ventre

PAULA_SCHMITT
ESPECIAL PARA A FOLHA, DO CAIRO

Mais uma noite de dança do ventre no Nilo, em um dos vários barcos que navegam o rio enquanto os clientes jantam e apreciam o show. O barco se move. A Torre do Cairo desponta pela janela, o prédio da Rádio e Televisão Egípcia passa devagar, o Ministério das Relações Exteriores mostra orgulhoso o junco faraônico que decora as suas colunas. No bufê, falafel, tabule, kafta. A música árabe avisa aos comensais que a dança do ventre vai começar. Nada pode ser mais egípcio. Ou pode?

No palco, uma mulher ruiva, de olhos azuis e pele alvíssima mostra o que é que a norueguesa tem. Majken Waerdahl -ou Hanin, para o público- tem 27 anos e dança há seis. Assim como outras estrangeiras, Hanin conseguiu unir prazer e trabalho ao vir para o Egito e ocupar o lugar de uma espécie que já está se tornando raridade: a “legítima” dançarina do ventre. O desaparecimento das egípcias nessa arte tem causas não confirmadas, mas cada dia mais evidentes. O motivo principal parece ser uma mistura de preconceito com conservadorismo religioso.

Segundo Farida Fahmy, diva do folclore egípcio, ex-bailarina e mestre em etnologia da dança, o país tem uma “relação de amor e ódio” com a dança do ventre. “Os egípcios podem até ir ao show, mas vão sempre olhar as dançarinas com menosprezo.” A própria Farida deixa escapar um desprezo todo seu: “Nosso grupo de dança folclórica mostrava a dança do ventre com decência e arte, não com o intuito de seduzir”. Farida explica que as egípcias “nascem com a dança do ventre no sangue”, mas são imediatamente dissuadidas do hábito. “Enquanto a filha tem 6 anos ou 7 anos de idade, a mãe acha bonitinho vê-la dançar. Mas, assim que a menina cria corpo, a mãe proíbe a filha dizendo que aquilo é indecente.”

A repressão e o preconceito não ficam só no âmbito familiar. A Adab, ou “polícia moral”, faz incursões por hotéis e casas noturnas para se certificar de que as dançarinas estão cumprindo o seu código de bons costumes. O preconceito e as restrições são tantas que a dança do ventre pode em breve se tornar dança do pescoço, a única parte do corpo que parece ter sido esquecida pelos censores. De acordo com a Adab, as dançarinas não podem deixar as coxas à mostra e, num desafio à semântica, não podem mostrar o ventre.
A região que vai da cintura ao seio é usualmente coberta com uma rede ou meia fina, qualquer coisa que pareça cumprir a lei. Algumas dançarinas preferem cobrir-se por completo. “Eu não me arrisco, cubro tudo e me livro de ser mandada para a cadeia”, explica Hanin.
A inglesa Francesca Sullivan, dançarina do ventre e jornalista, explica que nos hotéis cinco estrelas, ao contrário dos cabarés, ainda é possível burlar a lei. Mesmo assim, muitos hotéis preferem não arriscar. “Os policiais vêm aqui e multam a gente”, explica Hisham Abdelaziz, gerente do cinco estrelas Semiramis.

Como o ventre deixou de ser a atração principal, vale tudo para entreter o público. Completamente coberta com seu vestido vermelho, a dançarina Sohair tentava animar o público balançando um deslocado guarda-chuva, lembrando mais o frevo do Nordeste brasileiro do que qualquer expressão cultural do Egito desértico.

As consequências desse preconceito já são visíveis. De acordo com a Autoridade de Arte Egípcia, em 1957 havia cerca de 5.000 dançarinas do ventre profissionais. Atualmente apenas 380 estão registradas. E o registro é feito junto à Adab, a polícia moral, não nos sindicatos -dançarinas do ventre não têm representação. Para o empresário Omar Said, muçulmano que não bebe, não fuma e reza cinco vezes por dia, “a atmosfera geral do país está conduzindo a nação para o fundamentalismo religioso e a intolerância”. Para Said, arte e religião não deveriam se misturar. “O Islã, por exemplo, não admite o culto a imagens, mas nem por isso nós vamos destruir as estatuas faraônicas.”

Se por um lado o Egito está diminuindo a produção de dançarinas locais, o país continua sendo o centro mundial para a exportação da técnica.
Em meados do ano passado, a professora de dança do ventre Rakeia Hassan reuniu 170 dançarinas do mundo inteiro para uma oficina de dança do ventre. Entre elas, alunas e professoras de Estados Unidos, Itália, Noruega e nada menos que 35 professoras do Japão.

A excelência na dança do ventre, porém, parece estar com as egípcias. Para Francesca Sullivan, estrela da dança do ventre, loira e relativamente famosa, as egípcias vão ser sempre melhores. “Elas têm um jeito de se comunicar com a platéia, uma empatia que é essencialmente egípcia. Tem a ver com a linguagem corporal da cultura deles, gestos, músicas, letras. A dançarina e a platéia partilham do mesmo subtexto”. A professora Rakeia concorda. Em meio a 15 alunas francesas -donas-de-casa, empresárias e estudantes- que vieram ao Egito exclusivamente para duas semanas intensivas de dança do ventre, Rakeia ecoa o que foi repetido por todas as 11 dançarinas profissionais estrangeiras entrevistadas para esta reportagem. “O ritmo das egípcias está no sangue. É o mesmo que eu tentar sambar. Você acha que eu vou sambar como uma brasileira?”

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2801200109.htm



By Dani Camargo


Autor: Dani Camargo

Professora e bailarina de dança do ventre desde 2002. Formada em Educação Física e proprietária do Studio de Dança Dani Camargo, localizado em Campinas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *