A influência dos Estados Unidos e a difusão da dança do ventre

A dança do ventre atualmente está disseminada pelo mundo todo, porém muitos dos estilos que se espalharam não foram os de origem puramente árabe, mas sim versões híbridas americanizadas, cujos grandes difusores foram a TV e o cinema dos Estados Unidos.

Dança do ventre - influencia americana

A dança do ventre atualmente está disseminada pelo mundo todo, porém muitos dos estilos que se espalharam não foram os de origem puramente árabe, mas sim versões híbridas americanizadas, cujos grandes difusores foram a TV e o cinema dos Estados Unidos. Após o choque inicial com a chegada da dança do ventre na América e a febre com as “Little Egypt”, logo iniciou-se a ocidentalização e o processo de criação da dança que conhecemos hoje, que agrega elementos não árabes e mistura elementos árabes de várias partes do oriente médio.

Nos Estados Unidos e na Europa no final do século XIX e início do século XX, algumas dançarinas, dentre as quais Ruth St. Denis e Maud Allan estão entre as mais conhecidas, realizaram suas interpretações de dança oriental. Ao invés de usar danças reais, elas “trouxeram para a vida” movimentos de fontes icônicas do Oriente Médio da antiguidade. Desde os períodos iniciais da indústria cinematográfica e ao longo do século XX, grandes estrelas de cinema como Theda Bara, Dolores Gray, Hedy Lamarr e Rita Hayworth dançaram a dança do ventre nas versões da Broadway e de Hollywood em sagas bíblicas, filmes sobre as noites das arábias (“Arabian Nights”) e em musicais, como “Kismet”. Estas produções ajudaram a criar o ícone generalizado da dança exótica como uma representação da mulher do Oriente Médio. [Nota 09]

Começando em 1940 nos Estados Unidos, as primeiras bailarinas da dança do ventre propriamente dita, tal como eram apresentadas nas casas noturnas para pessoas de origem grega, libanesa e de outras regiões do Oriente Médio, eram principalmente “as mulheres étnicas” (ou seja, também descentes ou de origem dessas regiões). Mais tarde, algumas mulheres americanas com outra formação em dança, como flamenco, começaram a aparecer nesses lugares, aprendendo a dança do ventre com as “dançarinas étnicas” aí estabelecidas. A partir de 1970, quando dança começou a atingir a centenas de milhares de mulheres americanas, professoras passaram ensinar às alunas as formas de dança do Marrocos, Tunísia, Egito, Síria, Líbano, Turquia, Pérsia, Uzbequistão e Arábia Saudita e ainda criaram novas formas híbridas variantes com nomes como “American Tribal Style”, “Tribal Fusion” e “Cabaret Style”. [Seção +Quero MAIS+]

Os estilos de dança do ventre e influencia dos Estados Unidos
Exemplos de estilos de dança do ventre. Com exceção do folclore e do egípcio, todos têm influência americana.

Estas professoras e dançarinas profissionais têm também, por meio de festivais internacionais, espalhado a dança do ventre para a Europa, América do Sul, Austrália e Ásia. Esta grande e eclética comunidade, principalmente do sexo feminino, mantém comunicação diária através das mais diferentes ferramentas on-line, existindo no mundo cibernético milhares de páginas da Web, sendo a maioria dos Estados Unidos, com muitas imagens e vídeos dessa forma híbrida de dança. Desse modo, tanto a forma étnica quanto a híbrida, mesmo que divergentes em muitos aspectos, tornaram-se parte da cultura global, dançadas em restaurantes, feiras, concertos e festivais internacionais. Dentro deste contexto, as artistas e estudantes de dança do ventre contribuem para a construção da imagem que se tem hoje da dança, sendo isso, como Marta Savigliano (1995) aponta, o resultado de políticas e movimentos culturais globais.

 

O dilema Egípcio

 

O próprio Egito contribuiu para a formação dessa visão global da dança do ventre à medida foi transformando a dança por questões principalmente comerciais e de marketing. De 1930 a 1980, período conhecido como “Idade de Ouro da Dança do Ventre”, os filmes egípcios produzidos por diretores locais como Henry Barakat, Atef Salem, Hussein Fawzi e Niazi Mostafa e diretores estrangeiros como Robert Pirosh contribuíram para a popularidade da dança do ventre e transformaram dançarinas egípcias como Samia Gamal, Tahia Carioca e Naima Akef em estrelas de cinema, juntamente com outras que também se tornaram famosas no Cairo Opera Casino (El Cairo’s Opera Casino), propriedade da libanesa Badia Masabni.

 

Taheyya Kariokka em apresentação para soldados britânicos.
Tahia Carioca em apresentação para soldados britânicos.

Parece contraditório o Egito ter sido (e ainda ser) um pólo difusor da dança do ventre, algo que o estado e a religião lutam para combater.

 

Pinturas de Nebamun e Ott Piny
A participação da dança no cotidiano dos egípcios vem desde a antiguidade e manteve-se forte ao longo do tempo.

Mesmo sendo o amor do Egito com a dança algo que vem desde a antiguidade, como evidenciado por pinturas como as encontradas no túmulo de Nebamun em Tebas de uma cena de banquete com duas dançarinas que datam de 1390-1352 AC. E as obras de pintores orientalistas como Fabio Fabbi, Otto Pilny e Jean-Léon Gérôme.  E mesmo sendo a dança uma parte inegável da vida social egípcia e de celebrações como casamentos desde pelo menos os dois últimos séculos, a dança do ventre em ambientes não exclusivamente de mulheres é mal vista e é condenada por conservadores no Egito e em todo o Oriente Médio, que longe de considerá-la uma expressão artística, a vê como um trabalho vergonhoso e condenável, uma visão moldada pelo entendimento do Islã sobre a modéstia da mulher, que não deve expor seus corpos aos homens. Para entender mais, leia o post anterior: A dança do ventre e o preconceito no Oriente Médio.

 

A chegada das estrangeiras

 

Embora seja verdade que várias mulheres de baixa classe social e com poucas habilidades de dança se apresentem em casamentos em bairros de periferia com trajes minúsculos, como mostra o documentário canadense “À noite, eles dançam”, dirigido por Isabelle Lavigne e Stéphane Thibault, há muitas bailarinas profissionais que entretém o público em celebrações de luxo e locais de prestígio. Por esta razão, nas últimas décadas, dançarinas do ventre egípcias como a própria Dina Talaat, Randa Kamel e Aziza do Cairo testemunharam a chegada de dançarinas estrangeiras profissionais ao Egito com vários graus de sucesso, vindas dos dos Estados Unidos, da Rússia, da Europa e vários outros países, incluindo o Brasil. Nos Emirados Árabes e no Líbano, as dançarinas do ventre de outros países são contratadas para atuar em hotéis, restaurantes e boates de cinco estrelas, enquanto que o cenário de dança do ventre na Turquia ainda parece dominado por estrelas locais como Didem Kinali, Tanyeli e Asena.

Veja no vídeo abaixo uma performance de Didem Kinali.

Atualmente milhões de mulheres de diferentes nacionalidades em todo o mundo escolheram aprender dança do ventre. Todos os anos, professoras de vários países rodam o mundo dando workshops e seminários de dança do ventre, enquanto os cursos organizados no Egito por locais como Ahlan wa Sahlan de Raqia Hassan, Raqs of Course de Randa Kamel e Festival do Nilo de Mohamed Abou Shebika são frequentados por dançarinas de todo o mundo. Na Turquia há um par de festivais menores: Rakass Istambul e Tarazade.

As estrangeiras investem, estudam e se dedicam muito. Tanto esforço dá seus frutos! Bailarinas de outros países atingem o status de celebridade no Egito. Como exemplo podemos citar a armênia Safinaz, a americana Luna of Cairo e a brasileira Soraia Zaied.

Além disso, o fato da dançarina ucraniana Alla Kushnir vencer a competição “Al Raqisa The Belly Dancer”, um concurso internacional organizado pelo ícone da dança oriental egípcia Dina Talaat em 2014, é um reflexo da globalização da dança do ventre. Esta vitória constitui uma conquista notável porque a competição teve lugar no Egito, o berço da dança do ventre. Ela venceu 26 competidoras nacionais e estrangeiras. Ganhar um concurso de dança do ventre no Egito, julgado pela própria Dina, junto com a atriz tunisiana Ferial Youssef e roteirista e produtor Tamer Habib, não é apenas uma vitória para Alla Kushnir, mas para a globalização deste estilo de dança, porque prova que uma estrangeira é perfeitamente capaz de agarrar o sentimento da dança oriental em vez de “envolver-se em apropriação” como escritoras fanáticas como Randa Jarrar alegaram. [Nota 10]

Veja no vídeo abaixo a dança final de Alla Kushnir, vencedora do  concurso internacional Al Raqisa The Belly Dancer, no Egito.

Dina elogiou a última apresentação de Alla dizendo: “Gamila gidan”, que em árabe egípcio significa “muito bonita”, enquanto Ferial a chamava de rainha do palco e disse: “Você foi uma das dançarinas do ventre mais inteligentes em nosso programa de TV, sabendo quando ser calma e quando a ser selvagem. Seus movimentos são surpreendentes.”

A explosão da dança do ventre

 

O furor da dança do ventre tomou o mundo inteiro de surpresa. Na América Latina, a cantora colombiana de ascendência libanesa Shakira e novelas como “O Clone”, que já foi exportado para mais de 91 países, contribuíram para sua mais recente promoção. Hoje a dança do ventre é praticada no mundo e movimenta uma economia de milhões de dólares. Vídeos postados no YouTube atingem milhões de visualizações, programas de TV e revistas para mulheres não se cansam de falar sobre a dança, pesquisadores produzem continuamente uma enorme quantidade de artigos sobre o assunto. O crescimento é exponencial e sem volta.

Veja no vídeo abaixo um exemplo de como a dança do ventre se espalhou pelo mundo. É a divulgação de um evento na China.

Segundo Giselle Rodríguez, professora de dança do ventre há mais de 10 anos, ela acredita que a dança do ventre se tornou popular por causa de seu efeito de empoderamento da mulher alcançado através da apropriação de seu corpo até que ela seja capaz de movê-lo à sua vontade, tonando-se senhora de si. Naturalmente, seus movimentos hipnotizantes e os belos sons produzidos pelos instrumentos tradicionalmente usados na música do Oriente Médio como oud, nay, qanun e derbaque (tablah, darbuka) e mais recentemente violino, acordeão e saxofone também contribuíram para o sucesso da dança do ventre. Além disso, por ser uma atividade que pode ser praticada por qualquer mulher, em qualquer idade, com qualquer biótipo físico e que não depende de um parceiro é um outro motivador para esse crescimento exponencial. Quando mais ela cresce, mas é exposta na mídia e mais pessoas querem aprender, gerando um processo de retro-alimentação.


NOTAS:

 Nota 09

 Ruth St. Denis e dança moderna dos Estados Unidos

Ruth St. Denis
Ruth St. Denis, primeira dançarina profissional americana a incorporar elementos orientais de maneira sistêmica.

Ruth St. Denis (1879 – 1968) foi uma pioneira da dança moderna. Suas interpretações de dança exóticas e com inspirações orientais abriram novas possibilidades para as dançarinas e estimularam uma onda de experimentação criativa na dança moderna, incluindo o embrião da dança do ventre como a conhecemos. Ela fundou a influente escola de dança e companhia Denishawn, em 1915. Algumas de suas pupilas mais famosas foram Martha Graham, Doris Humphrey, Louise Brooks e Serena Wilson. Esta última se tornando umas das primeiras professoras americanas de dança do ventre. A religião oriental também influenciou fortemente seu estilo coreográfico. Durante muitos anos Ruth St. Denis ensinou em Hollywood, que como sabemos teve um grande papel na ocidentalização da dança do ventre.

 

Nota 10

Randa Jarrar e apropriação cultural

Randa Jarrar, escritora.
Randa Jarrar – escritora e autora do polêmico artigo em que critica bailarinas de dança do ventre brancas.

Randa Jarrar é uma escritora e tradutora palestino-americana, premiada tanto por seus trabalhos na língua inglesa quanto em árabe. Ela é também editora da revista literária on-line The Normal School, e passa seus dias ensinando a escrita criativa tanto para alunos de graduação quanto de pós-graduação. Jarrar escreveu um artigo dando sua opinião intitulado “Why I Can’t Stand White Belly-Dancers” (Porquê Eu Não Suporto Dançarinas do Ventre Brancas), que foi publicado no portal Salon em 2014. Neste artigo Jarrar disse que ela sentia que as mulheres brancas que fazem dança do ventre estão realizando apropriação cultural como imitações e estereótipos. Muitas dançarinas do ventre e e nao dançarinas se sentiram profundamente ofendidas e indignadas, incluindo o professor Eugene Volokh da UCLA. Já outros intelectuais, como o novelista e escritor de quadrinhos G. Willow Wilson sairam em sua defesa. Jarrar escreveu uma resposta aos críticos intitulado “I Still Can’t Stand White Bellydancers” (Porquê Eu Ainda Não Suporto Dançarinas do Ventre Brancas). Na verdade, isso gerou uma grande discussão nos blogs da internet, com muitas pessoas indo contra Jarrar e abrindo ainda discussões paralelas sobre apropriação cultural.


FONTES:

 “Belly Dance: Orientalism: Exoticism: Self-Exoticism” da Dra Barbara Sellers-Young e do Dr Anthony Shay, publicado em 2003 na revista Dance Research Journal.

 http://www.bellydance.com

http://www.atlantabellydance.com

https://en.wikipedia.org/wiki/Ruth_St._Denis

http://www.salon.com/2014/03/04/why_i_cant_stand_white_belly_dancers

http://archivo.eluniversal.com.mx/in-english/2014/globalization-belly-dance-98942.html

 


Para saber MAIS:

 Savigliano, Marta E. 1995. Tango and the Political Economy of Passion. Boulder: Westview Press.

McDonald, Caitlin E.  2013.  Belly Dance Around the World. New Communities, Performance and Identity. Print ISBN: 978-0-7864-7370-0, Ebook ISBN: 978-1-4766-0568-5

 

 


Seção +Quero MAIS+

Estilos de Dança do Ventre, um breve resumo

Cabaré – Quando a maioria das pessoas pensa em uma dançarina do ventre, é geralmente este tipo de Dança do Ventre que elas estão retratando. Também conhecida como “American Cabaret Belly Dance”, este estilo foi popularizado nos anos 1960 e 1970 por dançarinas pegando o melhor de todos os movimentos da dança do ventre no Oriente Médio e desenvolvendo uma dança rica e animada, muitas vezes realizada com música ao vivo. Aqui aparece o uso do véu.

Egípcio – A dança do ventre no estilo egípcio moderno (também conhecida como Raks Sharki ou Raqs Sharqi) é a mais popular. Com vocabulário fortemente influenciado pelo movimento ocidental, este estilo é considerado elegante e elevado, com muitos glitz e glamour.

American Tribal Style (ATS) – Estilo tribal tornou-se uma própria subcultura na comunidade da dança do ventre. As apresentações de improviso realizadas em grupo são belíssimas e únicas, sendo baseadas em uma série de pistas pré-definidas entre as dançarinas. Este é um estilo que acolhe todas as idades e formas, e é também influenciado por culturas urbanas.

Tribal Fusion – É sub-estilo da Dança do Ventre Tribal tendo como base da o Estilo Tribal Americano (ATS), fundindo movimentos, costumes e músicas com outras danças e culturas de todo o mundo, incluindo Índia, África e Pop americano moderno, para citar alguns.

Gypsy Style – Este estilo de dança do ventre é uma versão estilizada da dança cigana, e é em grande parte uma criação de Hollywood. Baseado no movimento turco e espanhol e influenciado pelas danças do povo romani, este estilo é muito animado, com grandes movimentos de percussão e gestos expressivos, bem como camadas coloridas de fantasias.

Folclore – Existem muitas danças e rituais étnicos e folclóricos em todo o Oriente Médio que atuam como a base da dança oriental. Por isso, o mais correto seria diferencia-las como formas de dança únicas. Danças folclóricas são danças étnicas ou rituais ou mesmo características culturais que são colocadas em uma apresentação de dança de forma teatralizada. Há tantas danças folclóricas e étnicas em todo o Oriente Médio que seria difícil compilar uma lista abrangente. No entanto, toda bailarina de dança do ventre deve ter conhecimento e incorporar danças folclóricas ou étnicas em suas rotinas de dança.


By Dani Camargo


Autor: Dani Camargo

Professora e bailarina de dança do ventre desde 2002. Formada em Educação Física e proprietária do Studio de Dança Dani Camargo, localizado em Campinas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *