Dança do ventre e sua ocidentalização e globalização

A visão e a influência do mundo ocidental na dança do ventre.

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O século passado testemunhou o fenômeno da dança do ventre se tornando um dos ícones principais do Oriente Médio no mundo ocidental. Esta representação estereotipada muitas vezes causa indignação, ressentimento e até mesmo protesto entre os árabes que se ressentem pelos ocidentais fazerem uma distorcida representação deles, focando num estilo de dança do ventre de cabaré, um símbolo de baixa classe e de má reputação para muitos no mundo árabe. Ressentem por esta ser a principal imagem midiática referente Oriente Médio. Desde a década de 70, milhões de mulheres e alguns homens no ocidente têm sido atraídos para a dança do ventre, investindo milhões e uma enorme quantidade de tempo para adquirir as habilidades básicas da dança a fim de performa-la. [nota 1]

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A globalização e ocidentalização da dança do ventre.

A dança do ventre e sua ocidentalização

Esta série de artigos vai abordar várias questões que são levantadas pelo fenômeno da dança do ventre e sua transformação, globalização e aculturação no ocidente; permitindo entender a influencia de culturas de diferentes países na dança e trazendo novas possibilidades de estudo. Nosso foco será a modalidade de dança solo, que é um gênero em rápida expansão e que tem sido rotulado como “performance intercultural”. Nos aprofundaremos nesse gênero da dança árabe oriental, desde suas definições, a fim de entender a evolução das relações entre a “dança étnica” (aquela dos países de origem) e a “dança híbrida” (misturada com as mais variadas culturas), olhando para as fronteiras/contornos nacionais e culturais associadas com elas. Já a algum tempo os artistas étnicos têm trabalhado em conjunto com os artistas ocidentais e/ou estrategicamente tem usado elementos da estética ocidental nas suas apresentações étnicas, o que complica e dificulta a analise “cross-cultural”, histórica e ideológica implícita neste estudo. [nota 2]

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Dança do Ventre – Representação orientalista do século XIX. Gustave Moreau, 1876, “L’Apparition”

É interessante notar que quando se avalia a música e a dança dentro da cultura popular, podemos observar que a interação multicultural de formas e imagens cria um discurso global, ofuscando as nacionalidades e passando uma ideia de homogeneidade (vide trabalho de Washabaugh 1998). Um exame da dança do ventre solo e sua história mundial revela uma enorme série de influências, as quais dispararam com a crescente disseminação da dança ao redor do mundo. Quando olhado de perto, essa homogeneidade não existe. Embora a parte externa e o vocabulário morfológico da dança possa parecer semelhante (ou até muitas vezes idênticos) ao que se tem no Oriente, os códigos e significados culturais mudam completamente no Ocidente. Por isso, iremos analisar a dança solo improvisada nas regiões de origem (dança étnica) e no Ocidente (dança híbrida), como a uma prática domestica e como um veículo para a execução pública amadora e profissional.

Acima de todas as outras considerações, as imagens projetadas pelos ocidentais a respeito da dança do ventre e outras formas de dança oriental levantam a espinhosa questão a respeito do Orientalismo.

O vocabulário associado com da dança oriental e sua posição no Ocidente, especialmente os Estados Unidos, remete a “outros”, fornecendo a ideia de “local vazio” (um lugar longe, vazio, lugar nenhum), com o sentimento de “não faz parte da minha cultura”, o que gera um terreno fértil para a construção de novas identidades e fantasias exóticas. Servindo como um repositório de estereótipos da mídia e das fantasias ocidentais sobre mulheres, agravado por imagens em que as dançarinas são representadas como femme fatale a fim de desempenhar um assertivo papel sexual em uma sociedade ocidental dominada por homens.

No próximo post faremos uma breve descrição do gênero de dança estamos analisando e também uma discussão sobre o orientalismo, o exotismo, e auto-exotismo como pontos de referência para nossa análise.


Notas:

Nota 01:

O nome Dança Oriental

Usamos o termo “dança oriental” para incluir todas as formas de dança solo improvisada do Oriente Médio, do Norte da África, dos Bálcãs e da Ásia Central. O termo tem sido usado livremente em publicações tanto populares quanto eruditas para cobrir uma ampla variedade de gêneros, desde o japonês clássico ao cambojano e indonésio, incluindo formas de dança indiana, de dança do ventre e outras formas do Oriente Médio.

Nota 02:

Exemplo de orientalismo híbrido

Como exemplo podemos citar a conferência sobre a dança do Oriente Médio (Orange Coast College, Califórnia), onde expoentes da dança oriental egípcia como Mahmoud Reda, Farida Fahmy e Nagwa Fouad estavam entre os presentes. Tanto os egípcios e quanto os norte-americanos incorporaram e apresentaram a forma orientalista, híbrida e intercultural durante o evento. Consciente e inconscientemente, de maneira auditiva e visual, à medida que os participantes falavam e se apresentavam, eles revelavam pedaços e nuances do exotismo orientalista e do auto-exotismo em torno de um gênero de dança que evoca questões de globalismo e apropriação cultural. Os shows que ocorreram a cada noite incluíram apresentações do tipo solo improvisado das formas de dança da Turquia e do Irã, mas esmagadoramente, à luz da presença de personalidades da dança egípcia, bem como pela preferência expressa dos presentes, o foco estava na dança egípcia de cabaré.

Apresentação de Shareen El Safy, dançando “Weadirt Toghor” durante a Segunda Conferencial Internacional de Dança do Oriente Médio, realizada no Orange Coast College em 2001.
Exemplo de miscigenação da dança oriental árabe com elementos ocidentais.

Crédito do vídeo: shareenelsafy


FONTE:

Texto baseado no famoso artigo “Belly Dance: Orientalism: Exoticism: Self-Exoticism” da Dra Barbara Sellers-Young e do Dr Anthony Shay, publicado em 2003 na revista Dance Research Journal.


Para saber MAIS:

Washabaugh, William, editor. 1998. Passion of Music and Dance. Oxford and London: Berg.


Seção +QUERO MAIS+

Orientalismo:

Movimento ocidental dos séculos 18 e 19 onde intelectuais, artistas, estudiosos e políticos retratavam as culturas orientais segundo seus próprios interesses, crenças e fantasias, distorcendo-as ao ponto de desfigura-las. Serviu com uma ferramenta legitimadora da exploração colonial através de um trabalho de pesquisa pautado na hipótese da inferioridade racial e cultural de todas as civilizações não europeias. O seu objetivo, não assumido, foi a busca da justificação do processo imperialista através do discurso de redenção dos “primitivos, inferiores e subdesenvolvidos”. Tal prática mostrou-se amplamente nociva e eficaz em criar um desinteresse absoluto em conhecer mais profundamente as civilizações asiáticas e africanas, bem como de trabalhar o medo e a desconfiança em relação aos dominados, cujas sociedades eram tidas como “incultas, irracionais e perigosas”. Infelizmente, influencia até hoje a visão que o ocidente tem do oriente, especialmente da cultura árabe e da dança do ventre.


By Dani Camargo


Autor: Dani Camargo

Professora e bailarina de dança do ventre desde 2002. Formada em Educação Física e proprietária do Studio de Dança Dani Camargo, localizado em Campinas.

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